Entre o sagrado e o profano: os doces fálicos

Posted: Junho 6, 2012 in Reportagens

Os doces fálicos, popularmente conhecidos por “quilhõezinhos de S.Gonçalo”, são presença habitual das Romarias de Amarante e estão ligados ao culto a S.Gonçalo, o santo padroeiro do concelho. Este santo é celebrado em Junho e é nesta época que este doce, com uma forma e feitio que atraem muitos olhares, é mais procurado.

Amarante é conhecida pela cidade que acolheu S.Gonçalo. Este beato a quem chamam S.Gonçalo marcou a história dos amarantinos e por isso é festejado por eles, todos os anos, no primeiro fim-de-semana de Junho. Estas festas, também conhecidas por festas do Junho são as mais importantes da cidade. Nestes dias reúnem-se milhares de pessoas no centro histórico. São várias as atividades religiosas mas também são várias as brincadeiras. Entre o sagrado e o profano encontramos, então, os doces fálicos.

Falar destes doces sem falar com quem os começou por fazer não seria a mesma coisa. Anabela Teixeira da Silva, de 45 anos, é natural de Padronelo, Amarante e conta-nos que este bolo foi inventado há muito tempo. Contudo, em Amarante, ela e o seu marido foram os primeiros a fabricá-lo, na Padaria Nova Lusa, e foi aí que se tornou um doce tradicional.

“Um dia perguntaram-me porque é que não fazíamos o bolo se nas tendas do Junho o faziam e traziam para vender. Então o meu marido resolveu fazer e saiu-nos bem. Já os fabricamos há bastante tempo e foi assim que se tornou um doce tradicional.”.

Este bolo consagra em si muita história. Os jovens rapazes, principalmente nas festas em honra a S.Gonçalo, as festas do Junho, abusam das brincadeiras ao redor destes doces fálicos: alguns têm dimensões bastante ousadas e são oferecidos às meninas que eles esperam conquistar. As mais envergonhadas começam por corar e depois mostram o seu agradecimento, já as mais atrevidas retribuem a oferta de forma sedutora e desafiadora.

Os mais idosos, habituados à repreensão da ditadura, não faziam essas brincadeiras e mal pronunciavam o nome dos doces de S.Gonçalo, tal como nos explica a D.Júlia, de 70 anos, cliente assídua da Padaria Nova Lusa: “Quando era pequenina dizia que era uma tesoura. Depois, mais tarde, fiquei a saber que eram os «quilhõezinhos de S.Gonçalo». Nunca ninguém falava o nome por causa da ditadura”, relembra.

Anabela Silva recorda que nem era permitido expôr os doces fálicos na montra e estes só eram vendidos durante as romarias. Quanto à receita ficamos a saber muito pouco: “Ainda dão um bocado de trabalho a fazer, é uma massa específica, não é como os que se vendem nas tendas do Junho. Mas o segredo eu não posso dizer”, conclui.

Estes doces são também conhecidos por provocar nos seus compradores um sorriso malandro, grandes gargalhadas e são também uma diversão para os turistas: “As pessoas perguntam muito por eles, os turistas não passam aqui sem vir ver o bolo, não digo que comprem, mas vêm ver o bolo e tirar fotografias”, diz-nos Anabela Silva.

Estes doces, proibidos durante a ditadura, são a representação icónica associada às preces e rituais das solteironas para arranjar um noivo. A lenda diz que uma mulher solteira tem que tocar com qualquer parte do corpo no túmulo de S.Gonçalo para conseguir arranjar um noivo, no espaço de um ano.

Recorde-se então que a este santo são atribuídos dotes de casamenteiro. Há quem o conheça por casamenteiro das velhas:

“São Gonçalo de Amarante

Casamenteiro das velhas

Porque não casais as novas

Que mal vos fizeram elas?

 

São Gonçalo de Amarante

Casai-me que bem podeis

Já tenho teias de aranha

Naquilo que vós sabeis

São Gonçalo de Amarante

Estás virado para a vila

Virai-vos para o outro lado

Que vos dá o sol na pila

Texto e Fotografia: Juliana Pinheiro

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Comentários
  1. Bruno Rodrigues diz:

    Excelente artigo, muito obrigado Juliana. estava à procura de informações sobre estes doces.
    Conitinuação de um bom trabalho e os meus melhores cumprimentos.

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